sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

POESIA DO DESESPERO - ALMA MINHA, ONDE ANDARÁS





Numa bandeira a estampei
Voa ao vento, desfraldada
Foi um rosto que inventei
É a face da minha amada.

Procuro uns olhos cinzentos
Ou verdes, da cor do Mar
Que deles, os meus sedentos
Por eles vivem a suspirar.

De pele clara ou tez morena
Expressão serena, radiosa
Cabelo longo ou curta melena
Com voz meiga, melodiosa.

Que ame a musica, arte suprema
Que acalma e sossega a mente
Que seja o alecrim e a alfazema
Que orne a vida, ternamente.

E se a dor morde, refúgio seguro
Que na vida viva a viajar
Que seja o ar que inspiro, puro
A estrela que me guia, a brilhar.

Indago na terra e no mar
Que desde sempre a procuro
Mas começo a fraquejar
O caminho é árduo e duro.

Destapei rostos muçulmanos
Já arranquei  véus e gurkas
Consultei mapas e portulanos
Que rateei em feiras Turcas.

Dinamitei vales e montanhas
Esventrei o globo terrestre
Avassalei as suas entranhas
Estudei a arte rupestre.

E em palácios encantados
Os arquivos que consultei
Em castelos abandonados
Mensagens de fumo lancei.

Do alto das suas ameias
Perscrutei os horizontes
Vi cidades, vilas, aldeias
Olhei debaixo das pontes.

Montado em negros bisontes
Extensas pradarias cruzei
Escalei picos, subi montes
Aos ninhos de águias trepei.

Desci a poços profundos
E às crateras dos vulcões
E contactei outros mundos
Só me vi com decepções.

A bordo de submersíveis
Baixei às fossas abissais
Raros seres vivos visíveis
Também de ti não vi sinais.

E submergi no Mar Morto
E no de Coral naveguei
Indaguei em cada porto
Por pouco não regressei.

E no fundo dos Oceanos
Em galeões naufragados
Uma floresta de enganos
Só tesouros abandonados.

Vagueei em esgotos imundos
Em caves e sótãos poeirentos
Tive encontros infecundos
Com astrólogos agoirentos.

Pisei as estepes infinitas
Selvas, bosques, florestas
Palmilhei terras malditas
Defrontei feras e bestas.

E fui à Terra do Fogo
E aos fiordes europeus
E na Etiópia e no Togo
Falei com crentes e ateus.

Abri trilhos na Amazónia
Com tribos Índias pactuei
Esquadrinhei a Patagónia
No Rio da Prata pesquisei.

A rota da seda segui
Montado em dromedários
A naufrágios sobrevivi
Enfrentei ferozes corsários.

E em velhos campanários
Sinos de bronze toquei
Arrombei velhos armários
Abri arcas, nada encontrei.

Estribado em cavalos alados
Os pólos gelados sobrevoei
Vi países, nações e estados
As multidões que interroguei.

E pesquisei em catedrais
Espreitei altares, sacristias
Perguntei a cardeais
Fui a bruxas cristãs e judias.

Vasculhei antigos moinhos
Em ribeiros e linhas de agua
Desci aos fundos marinhos
Crescendo foi minha mágoa.

Abri pesadas janelas
Toquei a todas as portas
Farejei becos e vielas
E fiz poções em retortas.

Examinei velhos mosteiros
Templos pagãos, velhas ermidas
Escoltado por mosqueteiros
Embosquei em terras proibidas.

Desci rápidos, em jangada
Assaltei correios e diligências
Combati de capa e espada
Busquei-te em vastas tenências.

Em sinagogas e mesquitas
E haréns de ricos califas
Segui infundadas pistas
Tentei a sorte com rifas.

Destruí florestas e matas
Percorri a muralha da China
Rolei em rápidos e cataratas
Dancei o tango na Argentina.

Perdi-me em encruzilhadas
Fui resgatado por esquimós
Que em suas terras geladas
Me socorreram com trenós.

Aliei-me a feios piratas
Naus e caravelas abordei
E assistido por primatas
A Africa inteira explorei.

Fui à terra dos Pigmeus
À Índia, ao Peru, ao Ceilão
Interroguei os Filisteus
Falei com clérigos no Irão.

Fiz rolar penedos e rochas
E avalanches provoquei
E entrei, munido de tochas
Em grutas que iluminei.

De lupa, analisei pegadas
Em trilhos que calcorreei
Escapei ferido, de ciladas
E com ladrões negociei.

Atrás da ilusão correndo
Que tempera, sal da vida
E de exaustão quase morrendo
Não te encontrei, alma querida.

Sem ti terei que viver
Que tristeza ao acordar
Menos um dia para morrer
Mais um dia sem te amar.

Será que nasceste, algum dia?
Valerá a pena buscar-te?
Serás apenas fantasia?
Irei, algures, encontrar-te?

Serei louco ou sonhador?
Terá o meu tempo passado?
Que venha o vazio e a dor
Para o pior estou preparado.

Mas é tão forte a convicção
Alma querida, de que tu vives
E não é noutra encarnação
Nesta quero que me catives.

E com remoçada esperança
Que neste tempo estarás
Volta a mim a confiança
Alma minha, onde andarás?

Estarás numa ilha deserta?
À sombra de uma palmeira?
Ou não tens morada certa?
E vives sem eira nem beira?

Será num barco ancorado?
Nas margens do Mar Vermelho?
Ou num casebre arruinado?
Com o tecto a cair de velho?

Demandarei nas favelas
Em tendas de beduínos
Em altares porei velas
Voltarei aos Apeninos.

Irei às Montanhas Rochosas
E às vertentes dos Himalaias
E oferecerei cravos e rosas
Aos Deuses Gregos e Maias.

Viajarei com tribos nómadas
Em oásis me refrescarei
Em gargantas lançarei cordas
Seguras pontes construirei.

Irei aos Andes, aos Apalaches
Às verdejantes terras Alpinas
E esperando que tu me aches
Acenderei lamparinas.

E se, por sorte, te encontrar
Cairei, exausto, em teus braços
Para sempre te irei amar
Perder-me em eternos abraços.

Da dimensão de Universos
Duradouros e desmedidos
A esperança vai nestes versos
Humildes, sinceros, sentidos.

E se ao os leres divisares
Que, para ti, tanto escrevi
Cruzarei de novo os ares
Voltarei ao Mar que vi.

Dar-te-ei meu coração
E tudo o que desejes ter
Vai para lá da imaginação
Que nem eu o sei dizer.

Mas esgotado de procurar
Esperarei por outra vida
Nesta não deverás estar
Foi oportunidade perdida.

Enrolada está a bandeira
Velha, não serve para nada
Não alimentou a fogueira
Da esperança, despedaçada.

Por enquanto vou existir
Não a viver, só a esperar
Quando tiver que partir
Deixarei só de cá estar.

Ninguém notará a falta
Nem uma lágrima correrá
Só uma dúvida me assalta
Além da vida, que haverá?

Porque se fosse só o vazio
Não ser nada, nada haver
Só de pensar me arrepio
Nunca te poderia ver.

Mas eu sei que haverá
Que algo há, que subsiste
Mas não sei como será
Eu só sei que algo existe.

A bandeira como mortalha
É o teu rosto que levarei
Que alimentou a fornalha
Duma vida vã, que falhei


CASTRANDO A IMAGINAÇÃO APAGA-SE A CHAMA DA ILUSÃO




* Reposição